Marília (Marie) Goulart é mestre pelo Programa de Meios e Processos Audiovisuais
da Escola de Comunicação e Artes da USP, com a dissertação “Um Salve
por São Paulo – imagens da cidade e da violência em três obras
recentes”. Graduada em Ciências Sociais pela Escola de Sociologia e
Política de São Paulo onde realizou pesquisas relacionadas a violência
nas cidades tanto através da Antropologia Urbana quanto da Sociologia da
Comunicação. Atua também como editora audiovisual e na realização de
curtas-metragens.
Por Mi Medrado
Bruxelas, 30 de Julho de 2017.
Mi Medrado: Como a professora vê o papel do áudio visual na vida metropolitana?
Marília (Marie) Goulart: Há uma ligação bastante estreita entre cinema e a vida metropolitana, ao ponto de alguns teóricos definirem o cinema como uma arte urbana. É claro que o cinema não é exclusivamente urbano, há uma filmografia incrível e essencial que passa ao largo das metrópoles, como o Cinema Novo brasileiro, por exemplo, com filmes emblemáticos realizados no sertão. De todo modo, há uma conexão histórica, de origem, entre cinema e vida metropolitana que marca o audiovisual.
As metrópoles são um produto da modernidade, do crescimento do capitalismo e da transformação no modo de produção que ocorrem após as Revoluções Francesa e Industrial. Essas transformações alteraram as mais diversas esferas da vida. A ciência, a arte e atos cotidianos como o deslocamento e a experiência sensível são também revolucionas com a modernidade. Nesse contexto, o cinema, cujo nascimento é datado em 1895, não cria, mas participa ativamente da nova cultura metropolitana que também surge na virada do século XVIII.
O cinema tem um papel fundamental na consolidação da vida metropolitana, por exemplo ao fazer da experiência frenética algo aprazível ou ao contribuir com a formação de um público anônimo e indiferenciado, das massas. Ao lado do conjunto de “novidades” e inventos que caracterizam a vida moderna, como o telégrafo, o trem, as vitrines, e as exposições internacionais, o cinema é talvez a mais completa síntese dessa nova sociedade. Além de simular o movimento e a experiência da vida urbana, o cinema é uma tecnologia que reuniu as principais características da vida moderna: experiência efêmera, representação/ fixação do real, aceleração, estímulo, técnica de circulação e movimento são características que irão marcar a linguagem audiovisual ao longo de toda história.
Essa conexão “de berço” se mantém ao longo de toda história do cinema em obras que demonstram fascínio, vertigem e também críticas contundentes às metrópoles. As sinfonias urbanas da década de 1920, o expressionismo, o cinema moderno dos anos 1950, o cinema noir, o neorrealismo, as Retomadas Cinematográficas dos anos 1990 e 2000 e também a produção recente são alguns dos exemplos que expressam com clareza a intensa conexão do cinema com vida nas metrópoles.
MM: Como as imagens do cinema podem ser consideradas “expressão privilegiada para discutir a vida nas metrópoles”?
Marília (Marie) Goulart: O cinema é testemunha e participante ativo da consolidação e do desenvolvimento das metrópoles e ao longo de sua história sempre manifestou seu interesse pelo espaço e pela vida urbana. Esse interesse resulta em um considerável conjunto de obras que permitem assistir hoje, no ano de 2017, a saída dos trabalhadores de uma fábrica da Paris de 1895, o despertar dessa mesma metrópole nos anos 1920, vagar pela Itália do pós-guerra, ouvir e percorrer trajetos e ângulos inimagináveis da cidade onde vivemos.
Para o estudo das cidades, o cinema é uma fonte extremamente importante. Dentro da noção ampliada de documentos, o cinema exprime os sujeitos, suas maneiras de ser e de se relacionar. Em sua espontaneidade e despretensão acadêmica os filmes são impregnados por uma experiência, por uma espontaneidade que o rigor da produção científica não permite. Desse modo o cinema é, muitas vezes, responsável por fazer ver e ouvir situações veladas no cotidiano, problemáticas urbanas e sociais que só depois serão objeto das ciências humanas.
Além de testemunha, discurso e reflexão sobre as cidades, o cinema é fundamental para entender os imaginários urbanos. Ao lado da literatura, publicidade e diversas outras expressões que atravessam o cotidiano urbano, o cinema participa ativamente da composição das múltiplas, e às vezes contraditórias, imagens da metrópole e da construção do senso do lugar. Um ponto de vista que partilho, e que será proposto no curso, é pensar o cinema como uma prática arquitetônica, isto é, como uma prática que constrói espaços – ainda que espaços na tela e no imaginário. Que dizer, por mais “realista” que seja a linguagem de um filme, ele nunca reproduz estritamente um espaço real, mas reapresenta, reinventa esse espaço, interpretando e conferindo sentidos à ele.
Como expressão artística, mais do que “documentar” as metrópoles de seus tempos, o cinema, ou parte da produção cinematográfica, faz do espaço um meio de expressão. Por exemplo, o cinema expressionista, o neorrealista e o cinema moderno fazem do cenário urbano um potente elemento expressivo e dramático. Então, a espacialidade, a própria cidade desses filmes tem muito a dizer sobre as metrópoles, ou sobre determinadas visões sobre as metrópoles. Por tanto é fundamental pensar no cenário dessa filmografia para além do suporte da ação, observar a composição, ritmo e montagem, enfim, o filme como expressão audiovisual que desde seus primeiros fotogramas vem discutindo a vida urbana.
MM: Sei que estão abertas as inscrições para o curso de extensão Cinema e cidade: panoramas sobre o urbano, na Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Pode nos contar quais filmes estão na lista de ‘leituras’?
Marília (Marie) Goulart: Como homenagem às origens do cinema o curso propõe uma visão panorâmica que destaca cinco importantes momentos da história do cinema e do desenvolvimento urbano. A escolha da abordagem panorâmica busca aproximar o “primeiro cinema”, as vanguardas, o cinema moderno e a realização contemporânea como momentos significativos para compreender as metrópoles do passado e do presente. Exibir um escopo amplo e diverso de filmes tem também o objetivo de apresentar aos participantes um escopo amplo de linguagens e poéticas do cinema em sua abordagem do urbano.
Da extensa filmografia que será discutida no curso alguns exemplos representativos do debate proposto são: Panorama from Times Building, New York (Americam Mutoscope/ Biograph, 1905), Um homem com uma câmera (Vertov, 1929), A chuva (Joris Ivens, 1929), Housing Problems (Edgar Anstey, Arthur Elton, 1935), 5 vezes favela (Marcos Farias, Miguel Borges, Cacá Diegues, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman, 1962), São Paulo S.A. (Sérgio Person, 1965), O Invasor (Beto Branti, 2001), Medianeiras (Gustavo Taretto, 2011), A cidade é uma só? (Ardiley Queirós, 2013) e Obra (Gregório Graziosi, 2015).
MM: Como as “cidades latino-americanas no cinema contemporâneo – a centralidade do espaço” são representadas?
Marília (Marie) Goulart: A questão espacial atravessa de diferentes formas o cinema da América Latina. Uma das características que aproxima a produção latino-americana é a presença de realizadores engajados no debate e no enfrentamento das problemáticas que assolam o assim chamado “terceiro mundo”, território transformado em estados-nação por meio de processos violentos de colonização e dominação. Esse engajamento presente no Tercer Cine, na Estética da Fome, no Cinema Novo, no Cinema Social, etc. esteve ligado a uma questão do território e do espaço, questão presente não apenas como tema, mas como forma, poesia e política. Por exemplo, filmes como Los Olvidados (Luis Buñuel, 1950), Rio 40 Graus (Nelson Pereira dos Santos, 1955) e Memórias do Subdesenvolvimento (Tomás Gutiérrez Alea, 1968) apresentam, ou constroem, o espaço urbano como pedra fundamental da trama e também como elemento político.
O olhar atento ao espaço, ao espaço urbano, está presente na filmografia latino-americana contemporânea, com um conjunto considerável de ficções e documentários que se debruçam sobre as metrópoles para compreender, denunciar e remediar tensões que marcam a vida nas cidades. Essa filmografia contemporânea contém especificidades que a diferencia da produção latino-americana dos anos 1990 e início dos anos 2000, quando o espaço urbano também aprece com força. Diferente de uma filmografia empenhada em entender as problemáticas que rompem e se afirmam nas cidades, mais recentemente, a mirada dos filmes tem se lançado para a própria configuração do urbano.
A centralidade do espaço urbano se expressa na produção contemporânea tanto pelo papel decisivo que o ambiente tem na trama, impulsionando situações e conflitos, quanto pela forma como é retrabalhada audiovisualmente. É interessante notar também a presença de personagens ligados à edificação e comercialização dos espaços, como arquitetos, corretores de imóveis e trabalhadores da construção.
Outra característica que marca parte desses filmes contemporâneos é que neles a construção espacial (visual e sonora) das cidades é estruturante para expor as tensões históricas e sociais que marcam as metrópoles. Por exemplo, o espaço fílmico de A cidade é uma só?, Obra e AU3 - autopista central (Alejandro Hartman, 2010) é parte fundamental da discussão sobre as marcas deixadas por regimes e dinâmicas autoritário nas cidades de Brasília/ Ceilândia, São Paulo e Buenos Aires. Mobilizando o espaço como elemento político, esses filmes tornam visíveis (e audíveis) personagens, dinâmicas e espaços muitas vezes invizibilizados.
Assim, em linhas gerais, essa filmografia contemporânea reforça e renova a conexão entre cinema e cidade e sugere a centralidade que a organização espacial possui nas configurações das novas e antigas problemáticas que marcam as metrópoles latino-americanas, se aproximando ainda desse engajamento cinematográfico que comentei.
MM: Quais aprendizados podemos ter ao utilizar as expressões visuais para pensar a estética e a arquitetura no espaço urbano?
Marília (Marie) Goulart: Essa sensibilidade e atenção do cinema sobre os espaços urbanos nos recorda que os espaços da cidade carregam sentidos, significados simbólicos dos sistemas de valores das diferentes sociedades que atravessaram e viveram ali. Os espaços urbanos dão corpo, isto é exprimem as tensões entre as diversas forças que operam e se enfrentam na configuração das cidades. Os espaços construídos cristalizam processos sociais, ou, como afirma Mies Van der Rohe, a arquitetura é a vontade de uma época concebida em termos espaciais.
Observar a cidade através do cinema e de outras expressões visuais nos ajuda a entender e a discutir as batalhas, nem sempre visíveis “a olho nu”, que estão implicadas na construção do espaço urbano. O cinema, e outras re-apresentações do espaço urbano, como a fotografia, pintura, etc., operam como lentes que permitem ver e ouvir as fissuras e as diferentes camadas que compõem as cidades. Esses são lócus privilegiado tanto como documento, testemunha, imagem, imaginário, lente e discurso sobre o urbano. Dessa forma, o cinema e os estudos visuais têm muito a contribuir com as ciências humanas, com áreas empenhadas em entender o ser humano e a sociedade de diferentes épocas e em diferentes dimensões, como a história, a sociologia e a antropologia, disciplinas que se se apegarem exclusivamente ao texto, “tropeçarão” na compreensão das cidades onde as imagens têm um papel central.
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