Parráfica

*por Renato Factori Canova


Assim que obtive contato com a Párrafo Magazine, um fascínio diante da pluralidade de sua composição ocupou-me. Tal vislumbre acerca da abrangência temática, solta, flutuante, esparsa, dotada de certa complexa leveza, me embriagou. Também chamou-me muito a atenção, o modo como a brincadeira parráfica procura explorar o espaço-lauda entre as imagens e as textualidades, sempre no intento por transgredir a celulose e vazar-se folha afora. Brincadeira esta que convida e sugere a problematizarmos o jogo da contemplação das palavras e a leitura das imagens. Para além das tais características que se enunciam latentes em sua razão de ser, algo de marcante que aos meus olhos (como pesquisador das revistas, jornais e folhetins dadaístas do início do século XX), lançou-se em piruetas, cambalhotas e rodopios, trata-se do caráter pluri-idiomático.

A marca pluri-idiomática ou pluri-vernacular da Párrafo Magazine encontra-se em vital consonância para com uma das primeiras revistas dadaístas publicadas em maio de 1916 por Hugo Ball (1886-1927). Tal revista, que traz a insígnia do mais radical movimento artístico da história, possui em seu nome a designação de um recinto recreativo, um Cabaret, onde os mesmos arteiros-anartistas ensaiavam seus espetáculos, somado ao pseudônimo de François-Marie Auret, um dos mais importantes filósofos franceses da era do esclarecimento, o sátiro e polêmico Voltaire. Assim, quando nos debruçamos sobre a nota dos redatores da revista (pág. 33), encontramos o seguinte esclarecimento: “Para evitar uma interpretação nacionalista, o editor desta coleção declara que não possui nenhuma relação com a mentalidade alemã. Os colaboradores da coleção Cabaret Voltaire pertencem às nações […]”, e a partir deste ponto, os mais notáveis nomes das artes vanguardistas aparecem juntamente às suas nacionalidades.

Além de apontar contra a política nacionalista, a Párrafo Magazine, assim como a Cabaret Voltaire foi em tempos de outrora, mostra-se como uma poderosa arma de resistência política para com histeria nacionalista e seus regimes promotores de apartheid, em que nos deparamos com sua face contemporânea mais medonha de Trump e seus lacaios. Enquanto os anartistas da Cabaret Voltaire rebelaram-se contra o enfadonho e assassino chauvinismo europeu, implodindo as barreiras promovida pelo ódio nacionalista e beligerante de Guilherme II, a Párrafo Magazine afronta a cultura nomo-idiomática imperialista contemporânea e se arrisca em explorar outras matizes vernaculares em sua composição: o espanhol, o português e o inglês. Quanto ao arriscar-se, há um dado distintivo em ambas as produções que vale salientar: enquanto a Cabaret Voltaire foi editada e publicada em Zurique, Suiça, região neutra durante a primeira guerra mundial, ou seja, sua possibilidade de publicação só foi possível fora dos limites do conflito, a Párrafo, encontra-se literalmente dentro do território inimigo, mas que um dia já foi a Cidade dos Anjos dos Irmãos Magon e Zapata.

Alguns poderão indagar: “Mas essa revista é financiada por uma das maiores universidades do mundo (UCLA), localizada em um dos estados americanos mais ricos do mundo”. Sim, evidente, mas em se tratando de um pais cujo seu passado atroz se faz mais que presente, expondo seu ethos beligerante para manutenção de seu Life Style, tendo a supor em meu último Parágrafo que…

Párrafar sedutores Párrafos latinos em uma relação erótica-imagética-literária com o puritano vernáculo anglo-saxão é PULAR O MURO, é imprimir na parede de concreto as infiltrações, é lançar-se nosso escarro e banhá-lo com a língua úmida na erótica-erosão do concreto desmanche da pureza linguística. É ousadamente lançar-se ao mar e sorrateiramente ofertar à Flórida um ar caribenho.


*Mestre em Ciências Sociais.Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Instragram: @palentete

http://lattes.cnpq.br/7969771476941632